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Fábio Mota diz que Vitória perde R$ 3 milhões por mês com fim das bets e admite risco de atraso de salários
Fábio Mota diz que Vitória perde R$ 3 milhões por mês com fim das bets e admite risco de atraso de salários
Presidente do Vitória afirma que decisão interrompeu contratos sem período de transição e diz que clube terá de buscar novos patrocinadores e até negociar jogadores
Por Evilásio Júnior
29/09/2026 às 13:10

Foto: Victor Ferreira / ECV
O presidente do Esporte Clube Vitória, Fábio Mota, afirmou que a decisão do governo federal de interromper a operação das casas de apostas esportivas terá impacto direto nas finanças do clube.
Em entrevista à CBN Salvador, nesta terça-feira (29), o dirigente disse que o Leão perde aproximadamente R$ 3 milhões por mês com o cancelamento dos contratos ligados às bets e às placas de publicidade do estádio.
De acordo com Mota, o clube ainda tinha 15 meses de contrato pela frente. Somando os valores que seriam recebidos até o fim deste ano e durante 2027, o prejuízo pode chegar a R$ 55 milhões.
“O Vitória ainda tinha 15 meses para cumprir o seu contrato. Você sabe muito bem que, quando vai fazer um planejamento financeiro, você levanta o que tem a receber e o que tem a pagar. E o que tem a pagar é de acordo com o que tem a receber”, afirmou.
O presidente fez questão de diferenciar a discussão sobre a regulamentação das apostas da forma como os contratos foram encerrados.
“Não está em discussão quem é contra nem a favor da bet. A discussão é a forma como foi feita. Nós dormimos com as contas do clube para pagar e com o dinheiro do lado e acordamos só com as contas sem o dinheiro”, declarou.
Vitória tinha 15 meses de contrato
De acordo com Fábio Mota, o Vitória utilizava os recursos dos contratos para organizar compromissos financeiros, inclusive parcelamentos relacionados à Justiça do Trabalho, à CNRD e às obrigações fiscais.
“Não teve período de transição. Pegou todo mundo de surpresa”, afirmou.
O dirigente defendeu que os contratos em vigor pudessem ser mantidos durante um período de adaptação ou que houvesse uma compensação para os clubes.
“A MP poderia, por exemplo, obrigar as bets a concluir os contratos em vigor, alguma coisa desse nível, ou dar um período de transição”, disse.
Para Mota, a ausência de uma transição provocou um problema imediato de caixa.
“O Vitória dormiu com as contas e o dinheiro do lado. E acordou com as contas sem o dinheiro”, reiterou.
Presidente admite risco de atraso de salários
Questionado sobre a possibilidade de o Vitória atrasar salários, Fábio Mota afirmou que o clube fará um esforço para evitar o problema, mas não garantiu que conseguirá manter os pagamentos em dia até o fim do ano.
“Vamos fazer um esforço muito grande para não atrasar salário. Amanhã temos que pagar o salário dos funcionários. Mas eu não posso dizer que não corre risco”, declarou.
Segundo o presidente, a folha de funcionários do clube gira em torno de R$ 2,5 milhões por mês. “O dinheiro da folha de funcionário do Vitória foi embora com a saída dos patrocinadores”, afirmou.
Mota também disse que a situação preocupa jogadores e funcionários. “Está todo mundo muito preocupado. Não é fácil. Você perder um patrocínio desse, um dinheiro desse. É o maior patrocínio do clube”, afirmou.
Conforme o dirigente, os contratos encerrados representavam 70% de todos os patrocínios do Vitória.
Clube terá de buscar novos patrocinadores e pode vender jogadores
O presidente afirmou que o departamento de marketing já trabalha na busca por novos patrocinadores, mas reconheceu que substituir imediatamente os valores pagos pelas bets será difícil.
“Não tem patrocinador que pague o que elas pagam para clube nenhum. São os maiores contratos que têm patrocínio. Três vezes mais do que qualquer patrocinador que pague”, disse.
Diante da necessidade de recompor o caixa, Mota admitiu que o clube poderá ser obrigado a negociar atletas no final do ano.
“A gente vai ter que vender jogador, não tem outra alternativa”, declarou.
O dirigente revelou que o Vitória recebeu propostas durante a janela do meio do ano por jogadores como Lucas Arcanjo, Renê e Ramon, mas as negociações não poderiam mais ser realizadas naquele momento porque a janela de transferências estava fechada.
“Agora não adianta porque as janelas estão fechadas. Quando se fala em negociar jogadores, você está falando para o final do ano”, explicou.
R$ 2,35 milhões em compromissos vencem imediatamente
A situação financeira se torna ainda mais delicada porque, segundo Fábio Mota, o clube tem compromissos que vencem já nesta quarta-feira (30).
O presidente citou R$ 1,34 milhão do Profut/PES, R$ 500 mil da CNRD e outros R$ 500 mil referentes ao acordo global da Justiça do Trabalho.
Somados, os compromissos chegam a R$ 2,35 milhões.
“Você vai encontrar em 24 horas dois milhões e trezentos e cinquenta de onde? É o que eu disse para você: nós dormimos com a conta e o dinheiro e acordamos só com a conta”, afirmou.
Mota também alertou para o risco de o clube perder a capacidade de obter certidões necessárias para buscar determinados contratos de patrocínio público caso a situação financeira se deteriore.
“Hoje sim [o Vitória tem condições de obter as certidões], mas daqui a 30 dias, 40 dias, eu acho difícil”, projetou.
Crítica à decisão e defesa de alternativas
Fábio Mota afirmou que não é contrário à proibição das bets, mas defendeu que os clubes deveriam ter recebido uma alternativa antes do encerramento dos contratos.
“Eu não sou contra a decisão de proibir as bets, contanto que se dê alternativa na hora que você proíbe”, afirmou.
O presidente do Vitória reconheceu os problemas sociais relacionados às apostas e disse compreender a preocupação com pessoas que desenvolveram dependência do jogo.
“Eu sei que muitas e muitas pessoas têm problema de saúde, acabaram sua vida em função da... Todos nós somos sensíveis a isso. Ninguém está discutindo aqui a sensibilidade ou não”, declarou.
Segundo ele, a questão é a ausência de um período para que os clubes reorganizassem seus orçamentos.
“Se isso já era a ideia, então você teria que vir junto com isso com um plano de socorro que estava se desenhando”, afirmou.
Mota cobra segurança jurídica e questiona impacto sobre SAFs
O dirigente também relacionou a decisão à discussão sobre a transformação dos clubes em Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs).
Para Mota, a interrupção de contratos que estavam em vigor pode aumentar a percepção de insegurança jurídica para investidores interessados no futebol brasileiro.
“O Vitória tinha um ato jurídico perfeito com as bets, que era receber por mais 15 meses. A partir do momento que, por uma canetada, você anula tudo, quem é um investidor que vai querer comprar um clube no Brasil?”, questionou.
Ele acrescentou: “Você gera uma insegurança jurídica muito grande. [...] Você vê que a regra de hoje pode não valer amanhã.”
Mota afirmou ainda que o Vitória mantém as buscas para encontrar um investidor para uma eventual SAF, mas ressaltou que a transformação do clube em sociedade anônima não garante, por si só, a chegada de um comprador.
“Não é simplesmente você transformar. Transformar, nós vamos transformar. E você encontrar o investidor para vir para dentro do clube”, afirmou.
Presidente cita patrocínios de empresas públicas
Como alternativa para substituir os contratos das bets, Fábio Mota afirmou que os clubes aguardam possíveis patrocínios de empresas públicas.
“Tem a Petrobras, tem o Banco do Brasil, tem a Caixa, a gente está aguardando” listou, ao citar ainda o Banco do Nordeste entre as possibilidades.
O problema, segundo o dirigente, é que os clubes precisam apresentar certidões para fechar contratos com empresas públicas e, diante da perda repentina das receitas das apostas, podem enfrentar dificuldades para manter suas obrigações fiscais em dia.
“O Vitória não vai acabar”, diz Fábio Mota
Apesar do cenário financeiro apresentado, Fábio Mota assegurou que a interrupção dos contratos não significa o fim do clube, mas reconheceu que o Vitória terá de enfrentar dificuldades importantes.
“O Vitória não vai acabar sem as bets. Vai continuar, mas vai continuar fragilizado, com dificuldades seríssimas”, garantiu.

