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ACM Neto diz que Jerônimo não merece seu telefonema e descarta candidatura à Prefeitura de Salvador em 2028

ACM Neto diz que Jerônimo não merece seu telefonema e descarta candidatura à Prefeitura de Salvador em 2028

Em entrevista à CBN Salvador, ex-prefeito promete oposição dura ao governador, reage à declaração de que seria “enterrado” politicamente e critica negociação de cargos do União com Lula

Por Evilásio Júnior

06/11/2026 às 11:33

Foto: Evilásio Júnior

O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) confirmou nesta sexta-feira (6) não ter telefonado para o governador Jerônimo Rodrigues (PT) após a derrota nas eleições de outubro e que não pretende fazê-lo. 

Em entrevista à CBN Salvador, o vice-presidente nacional do União Brasil também descartou planos de disputar a Prefeitura da capital baiana em 2028, prometeu exercer uma oposição dura ao governo estadual e anunciou que pretende reorganizar seu grupo político para as próximas eleições municipais.

Ao ser questionado sobre a ausência de um telefonema ao adversário após a confirmação do resultado eleitoral, Neto atribuiu sua decisão ao comportamento de Jerônimo durante a campanha.

“É verdade que eu não liguei e não ligaria. Não liguei e não ligaria porque ele não merece o meu telefonema. Ele fez uma campanha na base do ódio, da mentira, das manipulações, ele me atacou pessoalmente, ele, no seu programa eleitoral, trouxe várias mentiras a meu respeito, e ele é uma pessoa que não merece o meu telefonema”, disparou.

O ex-prefeito afirmou que reconhecer o resultado das urnas não significa ter a obrigação de estabelecer uma aproximação pessoal com o governador reeleito.

“Na hora da derrota, imediatamente, quando vi que a eleição estava resolvida, como sempre faço, desci, falei com a imprensa, dei uma declaração reconhecendo que tinha perdido. Aqui nunca ninguém me ouviu com choro de perdedor, nem na passada nem nessa, de questionar o resultado das urnas”, declarou.

Neto também defendeu a confiabilidade das urnas eletrônicas, embora tenha criticado o que considera uso da máquina pública e abuso do poder econômico por governantes que disputam a reeleição.

“Eu acho que o processo eleitoral no Brasil, as urnas são absolutamente seguras. Sempre defendi isso. Continuo defendendo. Depois de duas derrotas, defendo a lisura do processo eleitoral brasileiro nas urnas”, ressaltou. “Não me sinto, de maneira alguma, obrigado a ligar para Jerônimo pela postura que ele teve. Se ele tivesse tido uma postura de ganhar a eleição de uma maneira limpa, se ele tivesse sido correto e justo na sua campanha, aí talvez ele merecesse a minha ligação e o meu telefone”, acrescentou.

“Ele não vai me enterrar”, reage Neto a declaração de Jerônimo

Durante a entrevista, foi exibido um trecho de uma declaração de Jerônimo Rodrigues na qual o governador afirmou: “Nós vamos enterrar ele”, em referência ao adversário político.

Neto reagiu ao apontar que o petista não demonstrou a humildade que, em sua avaliação, deveria acompanhar uma vitória eleitoral.

“Você veja como o Jerônimo é uma pessoa raivosa, é uma pessoa que no coração dele só existem sentimentos ruins. Eu lamento porque quem ganha deve ter a humildade e a grandeza da vitória. Ele nitidamente não teve”, criticou. “Eu lamento dizer a ele que ele não vai me enterrar. Porque eu tenho uma história, eu tenho serviços prestados à Bahia, eu tenho um grupo político, eu tenho pessoas que me acompanham. Eu tive uma grande votação no Estado, mais de 43% dos votos dos baianos”, complementou.

O ex-prefeito afirmou que acompanhará de perto a administração estadual e cobrará o cumprimento das promessas feitas por Jerônimo durante a campanha.

“Esse tom dele é um tom de quem, na minha opinião, sabe que vai enfrentar uma oposição dura, porque eu farei oposição dura a ele. Eu vou acompanhar cada passo do governo dele. Eu vou fiscalizar, claro que de maneira respeitosa, de maneira democrática, mas eu vou fiscalizar cada ação que o governo dele realizar, sobretudo o que ele não fizer, as coisas que ele prometeu e que, eventualmente, não vem a entregar”, prometeu.

Apesar do confronto, Neto afirmou que não pretende questionar a legitimidade do novo mandato do governador.

“Eu continuarei na oposição. Por quê? Porque essa foi a vontade do eleitor. Se eu tivesse tido 50% mais um dos votos hoje, eu estaria preparando o governo da Bahia. Mas como eu perdi, eu vou fazer oposição respeitando as urnas”, declarou.

Neto descarta candidatura à Prefeitura em 2028 e promete renovar grupo político

Questionado sobre a possibilidade de voltar a disputar a Prefeitura de Salvador, cargo que ocupou entre 2013 e 2020, ACM Neto foi direto ao afirmar que não conta com o plano em seu projeto político.

“Eu, ACM Neto, não tenho plano de ser candidato a prefeito de Salvador”, assegurou.

Segundo ele, a prioridade será trabalhar pela construção de uma candidatura que represente o conjunto de seu grupo político e dê continuidade às administrações iniciadas em 2013 e mantidas pelo prefeito Bruno Reis (União Brasil).

“Vou trabalhar dentro do meu grupo político para tentar construir um processo de continuidade da renovação política que a gente vem promovendo ao longo desses anos, com a revelação de quadros e com oportunidade para novos talentos”, explicou.

Neto afirmou, entretanto, que não pretende antecipar a discussão sobre nomes para a sucessão municipal.

“Não vamos discutir Prefeitura de Salvador nesse momento. Não há hipótese”, enfatizou.

O ex-prefeito também reagiu às declarações de lideranças petistas, inclusive o presidente Lula, sobre a intenção do partido de conquistar a Prefeitura de Salvador em 2028.

“Eu vou repetir, o PT nunca ganhou eleição para prefeito de Salvador. Mesmo tendo vencido seis eleições para Presidência da República, mesmo tendo vencido seis eleições para o governo do Estado, nunca ganharam eleição para a Prefeitura de Salvador”, afirmou.

Na avaliação de Neto, o resultado da disputa estadual não determina necessariamente o comportamento do eleitorado na eleição municipal.

“Vai cair do cavalo quem apostar que, em função do resultado de 2026, já tenha alguma coisa decidida para 2028. Vai cair do cavalo”, declarou.

Ele também reconheceu que o resultado eleitoral exige uma avaliação interna do grupo de oposição.

“É preciso também, do lado de cá, a gente reconhecer que as urnas deram recados, que esses recados devem ser compreendidos com o propósito de ajustar rotas, de melhorar ações, de aperfeiçoar decisões políticas”, ponderou.

Neto anunciou que pretende percorrer o interior da Bahia para reorganizar suas bases políticas. Inicialmente, os encontros não terão caráter público e serão voltados à avaliação dos resultados eleitorais e à preparação das disputas municipais.

“Eu pretendo iniciar uma jornada de visitas a municípios do interior do Estado, não com o objetivo de fazer eventos públicos, mas com o objetivo de organizar internamente o nosso grupo”, explicou.

Neto critica adesismo e diz que Thiago Gilleno não fez campanha com ele

Questionado sobre a redução da bancada de oposição na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) e a possibilidade de novos parlamentares aderirem à base governista, Neto afirmou que espera manter o tamanho efetivo do grupo oposicionista.

Ele argumentou que, após as eleições de 2022, deputados eleitos por partidos de oposição acabaram migrando politicamente para a base de Jerônimo.

“Dessa vez a gente elegeu uma quantidade menor, mas eu acho que não haverá esse movimento de adesão ou de adesismo à base do governo”, avaliou.

O ex-prefeito também comentou a situação do deputado estadual eleito Thiago Gilleno (Republicanos), citado durante a entrevista como possível integrante da base governista.

“Tiago Gilleno não fez campanha comigo. A esposa dele, em Ponto Novo, votou em Jerônimo, que é prefeita de Ponto Novo. Então, não adianta a gente querer criar fato onde não existe”, afirmou.

Neto acrescentou que nunca impôs restrições a candidatos de seu grupo que precisassem construir alianças eleitorais com lideranças ligadas ao governo estadual.

“Eu nunca chamei qualquer deputado para gerar constrangimento e impedir que fosse votado com lideranças políticas que apoiavam a base do governo”, disse.

União Brasil não deve negociar cargos com Lula, defende ex-prefeito

No cenário nacional, ACM Neto defendeu que o União Brasil evite negociar cargos no quarto mandato do presidente Lula (PT), embora tenha admitido que a direção nacional da legenda ainda não definiu oficialmente sua posição.

“Se depender de mim, o partido não negocia cargos. Eu nunca fiz política negociando cargos. Eu acho que o partido deve estar aberto a dialogar sobre a agenda do Brasil”, declarou.

O ex-prefeito afirmou que a legenda poderá apoiar propostas do governo federal consideradas importantes para o país, sem que isso represente adesão política ao PT.

“Não é razoável você desconsiderar o que está acontecendo, sobretudo na economia brasileira. Então, o partido deve dialogar sobre a agenda do Brasil, mas, se depender da minha opinião, isso não deve discutir cargos, isso não deve girar em torno da ocupação de cargos”, reforçou.

Neto reconheceu, entretanto, que sua posição poderá não prevalecer dentro do partido.

“Pode ser que a maioria decida que o caminho deve ser o de ocupação de cargos, como aconteceu na vez passada”, admitiu.

Ele ressaltou que a participação do União Brasil em ministérios do governo Lula durante o mandato anterior não significou alinhamento eleitoral da legenda com o presidente.

“Eu estarei na oposição, na oposição nacional e estadual, farei oposição ao PT, não vou deixar de trazer todas as críticas que eu achar que sejam necessárias para a construção de um país e de uma Bahia melhor”, assegurou.

“Ou Lula cumpre as promessas e quebra o Brasil, ou faz o ajuste fiscal”

ACM Neto também demonstrou preocupação com os rumos da economia brasileira após a reeleição de Lula.

Na sua avaliação, o presidente terá dificuldades para conciliar as promessas apresentadas durante a campanha com a necessidade de equilíbrio das contas públicas.

“Lula vai ter que fazer uma escolha, se ele vai cumprir as promessas que fez durante a campanha eleitoral ou se ele vai preservar o Brasil de um quebra-quebra, porque é impossível as duas coisas acontecerem”, afirmou. “Ou ele vai cumprir o que prometeu e quebrar o Brasil, ou ele vai superar as coisas que prometeu na campanha e garantir o equilíbrio das contas públicas, fazer o ajuste fiscal, encaminhar reformas para o Congresso Nacional e preservar a base econômica brasileira”, acrescentou.

O ex-prefeito disse que, durante conversas com dirigentes partidários e parlamentares em Brasília, percebeu incertezas sobre as prioridades do próximo governo.

“Essas últimas duas semanas eu estive em Brasília, conversando com dirigentes do União Brasil, conversando com parlamentares, deputados e senadores, e até agora ninguém sabe exatamente o que vai ser esse Lula 4, qual vai ser a agenda do governo, quais serão as prioridades que o governo vai apresentar ao Congresso Nacional”, relatou.

Neto também avaliou que o novo perfil do Congresso exigirá maior capacidade de negociação por parte do Executivo.

“Se eles mantiverem a mesma postura desse Lula 3 para o Lula 4, eu vejo dias muito difíceis pela frente”, afirmou.

Apesar das críticas, o ex-prefeito disse que não deseja o fracasso da administração federal.

“Eu não sou torcedor contra o Brasil, eu não sou daqueles que vou defender o quanto pior, melhor, não. Então, se medidas forem encaminhadas para o Congresso e que sejam importantes para o país, nós vamos apoiar essas medidas”, declarou.

Ex-prefeito defende artistas no Festival Virada e critica boicotes políticos

Outro assunto abordado na entrevista foi a polêmica com artistas que manifestaram posições políticas contrárias ao PT durante a campanha presidencial. Esta semana, o ator Érico Brás defendeu em suas redes sociais o boicote a atrações da música sertaneja que apoiaram o candidato derrotado à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), na programação do Festival Virada Salvador.

ACM Neto defendeu a decisão de Bruno Reis de manter as duplas Jorge & Mateus e Zé Neto & Cristiano, além do cantor Nattan.

O ex-prefeito afirmou que manifestações de preferência eleitoral não devem justificar a exclusão de artistas de eventos públicos. Ele também contestou acusações de xenofobia dirigidas a integrantes das atrações, ao classificá-las como falsas.

“O prefeito não é dono do voto de quem sobe no palco para cantar”, afirmou.

Neto comparou a situação com a participação de artistas que apoiaram Lula em eventos promovidos pela Prefeitura de Salvador, ao citar Daniela Mercury e BaianaSystem.

“Eu continuo admirando Daniela. Tenho com ela, por exemplo, uma relação pessoal muito boa. E não vou deixar de admirá-la como cantora. Ela tem a opinião dela, eu tenho a minha. E eu tenho que respeitar a dela e pronto. Democracia é isso”, declarou.

O ex-prefeito afirmou que nunca condicionou a contratação de atrações musicais ao posicionamento político dos artistas durante seus oito anos à frente da Prefeitura.

“Eu quero que levante o dedo um artista que, por qualquer posicionamento político, tenha sido prejudicado em oito anos de meu mandato como prefeito de Salvador, ou mesmo nesses seis anos de mandato do prefeito Bruno Reis, à frente da cidade de Salvador. Nunca aconteceu isso, jamais aconteceu isso”, disse.

Neto também criticou decisões de gestores municipais de outras capitais, a exemplo de Recife e Fortaleza, de cancelar apresentações em meio à controvérsia.

“Bruno deu um exemplo de respeito à democracia”, avaliou.

Ao encerrar a entrevista, ACM Neto reafirmou que continuará ativo no debate político baiano, mesmo fora de um cargo eletivo, e agradeceu aos eleitores que apoiaram sua candidatura ao governo estadual.

“Eu continuo aqui à disposição dos baianos, vou servir ao meu povo, não como governador, mas como uma pessoa que tem voz, que tem um espaço, que tem a possibilidade de refletir o que muitos que às vezes querem falar, mas não podem”, concluiu.

Confira a entrevista na íntegra:

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