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Jorge Solla prevê cenário 'sem freios' em eventual governo Flávio Bolsonaro e alerta para riscos à Bahia
Jorge Solla prevê cenário 'sem freios' em eventual governo Flávio Bolsonaro e alerta para riscos à Bahia
Deputado federal reeleito afirma que a esquerda terá dificuldades para barrar "retrocessos" no Congresso, defende mobilização social e aponta ameaça a investimentos e políticas públicas no estado
Por Evilásio Júnior
19/10/2026 às 12:58

Foto: Evilásio Júnior
O deputado federal reeleito Jorge Solla (PT-BA) demonstrou preocupação com os rumos políticos do país e os impactos para a Bahia diante da possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial.
Em entrevista à CBN Salvador, o parlamentar avaliou que um eventual governo do senador, aliado a uma maioria conservadora no Congresso Nacional, poderia comprometer o funcionamento das instituições democráticas e colocar em risco investimentos e políticas públicas.
“Nós vamos ter um governo extremamente autoritário, centralizado, antidemocrático e sem freios”, afirmou Solla, ao analisar um cenário.
Para o petista, a situação seria ainda mais preocupante caso houvesse enfraquecimento da autonomia do Poder Judiciário. Ele lembrou que o sistema democrático brasileiro se baseia na independência e no equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
“À medida que você tem um parlamento que vai estar completamente alinhado com o Executivo, e esse Executivo vai controlar o Judiciário, se perder a autonomia, não terá freio”, declarou.
Bahia pode perder investimentos, alerta deputado
Solla afirmou que a Bahia seria particularmente prejudicada em caso de mudança na orientação do governo federal. De acordo com o petista, o estado vive um ciclo de investimentos em infraestrutura, saúde e educação que poderia ser comprometido por uma eventual interrupção de recursos da União.
Entre as iniciativas citadas pelo parlamentar estão a Ponte Salvador-Itaparica, o VLT do Subúrbio Ferroviário, a expansão do metrô, a implantação de um campus universitário federal em Paulo Afonso, a construção de hospitais regionais e municipais e a ampliação da rede de institutos federais e universidades.
“Nós nunca tivemos tanto investimento federal como nós estamos tendo na Bahia”, afirmou.
O deputado também recordou o período do governo de Jair Bolsonaro (PL), quando, segundo ele, houve dificuldades para a liberação de recursos destinados a obras e serviços de saúde no estado. Solla mencionou a necessidade de recorrer ao Judiciário para assegurar repasses e citou os hospitais filantrópicos, entre eles o Irmã Dulce, o Aristides Maltez e o Martagão Gesteira, como exemplos de instituições que enfrentaram dificuldades na atualização de contratos.
Na avaliação do parlamentar, a possibilidade de um novo governo alinhado à direita poderia trazer consequências para o financiamento de políticas estaduais e municipais, especialmente se houvesse restrições à transferência de recursos federais.
Reforma da Previdência preocupa petista
O deputado também demonstrou preocupação com a possibilidade de uma nova reforma da Previdência. Ele citou declarações de Flávio Bolsonaro sobre o tema e afirmou que uma eventual mudança poderia retomar propostas que, conforme Solla, foram barradas ou modificadas durante o governo do pai do senador.
Como exemplo, o parlamentar lembrou sua participação na comissão mista que discutiu a reforma previdenciária durante a gestão Bolsonaro. Segundo ele, a proposta inicial previa a substituição do modelo previdenciário solidário por um sistema de capitalização individual, no qual o valor da aposentadoria dependeria das contribuições acumuladas por cada trabalhador.
“Nós fomos para lá para diminuir o desastre, diminuir o estrago”, afirmou, ao explicar a atuação da oposição naquele período.
Solla criticou o modelo de capitalização e disse que a proposta poderia prejudicar trabalhadores que não conseguissem acumular recursos suficientes para garantir uma aposentadoria. Ele também apontou possíveis mudanças nas regras de idade e tempo de contribuição como motivos de preocupação.
Para o deputado, uma nova reforma com perfil semelhante seria mais difícil de enfrentar diante da atual composição do Congresso Nacional, que considera desfavorável à esquerda.
Petista defende mudança de estratégia no Congresso
Ao avaliar a hipótese de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Solla afirmou que o governo precisará lidar com um Legislativo no qual a direita ampliou sua presença e capacidade de influência.
Mesmo em um cenário de vitória de Lula, o parlamentar considera que a esquerda não terá maioria suficiente para aprovar todas as propostas do Executivo sem negociar com outros setores políticos.
“Lula ganhando, nós vamos ter que sentar e reestruturar a estratégia de atuação do partido e da bancada”, considerou.
Na avaliação do deputado, a atuação parlamentar precisará ir além das negociações com o chamado Centrão. Ele defendeu uma articulação mais ampla com movimentos sociais, universidades, profissionais de saúde e outros segmentos da sociedade para pressionar o Congresso em defesa de políticas públicas.
Solla ressaltou que, embora o Executivo elabore a proposta orçamentária, cabe ao Legislativo aprová-la e definir emendas. Por isso, considera fundamental mobilizar a população para evitar cortes em áreas como saúde e educação.
“Quando você quer destruir uma política, a forma mais fácil que tem é fechar a torneira”, declarou.
O petista citou a recomposição de recursos promovida durante o governo Lula, após a aprovação da chamada PEC da Transição, como um dos fatores que permitiram recuperar parte das perdas orçamentárias acumuladas em áreas sociais.
Redes sociais e votação da esquerda na Bahia
Durante a entrevista, Solla também analisou o resultado das eleições proporcionais e a influência das redes sociais na formação das bancadas parlamentares. Reeleito com 152.049 votos, ele destacou o crescimento da bancada do PT na Assembleia Legislativa da Bahia, de nove para 14 deputados estaduais, e a manutenção da representação da federação formada por PT, PCdoB e PV.
O deputado, no entanto, chamou a atenção para a diferença entre o desempenho de candidaturas impulsionadas pelas redes sociais em estados como São Paulo e Minas Gerais e os resultados observados na Bahia.
Solla citou o crescimento eleitoral de parlamentares identificados com a direita nesses estados e questionou por que fenômeno semelhante não ocorreu na mesma proporção entre os candidatos baianos.
“Se as redes sociais hoje são o que mais influencia no processo eleitoral, como é que não tiveram esse papel aqui na Bahia?”, questionou.
Para ele, a resposta pode estar relacionada às lideranças políticas locais e às diferentes formas de construção de candidaturas. O deputado afirmou que o assunto merece investigação mais aprofundada e chegou a mencionar a possibilidade de desenvolver uma pesquisa acadêmica sobre o tema.
Lula pode não voltar a Salvador antes da eleição
Na entrevista, Solla também comentou a possibilidade de o presidente Lula retornar à Bahia antes do segundo turno. Segundo o deputado, havia interesse em uma nova agenda em Salvador e também em Feira de Santana, mas a programação anunciada para a região de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, poderia ser a última oportunidade de visita presidencial ao estado antes da votação.
“Acho que não vai ter mais tempo hábil para isso”, cogitou.
Na avaliação do parlamentar, a escolha de uma agenda conjunta entre Juazeiro e Petrolina permite mobilizar apoiadores dos dois estados em um período curto até a eleição. O evento está marcado para esta terça-feira (20).
Críticas a Nikolas Ferreira
Indagado sobre possíveis cenários para a próxima disputa presidencial e sobre nomes que poderiam ganhar protagonismo na direita e na esquerda, Solla classificou como especulativa uma eventual disputa futura entre Nikolas Ferreira (PL-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP).
O petista elogiou a atuação parlamentar de Erika Hilton, mas fez críticas ao deputado mineiro. Segundo Solla, Nikolas não teria contribuído de forma relevante para os debates e as comissões parlamentares que acompanhou.
O deputado citou uma participação de Nikolas em uma reunião da Comissão de Saúde, quando a então ministra da Saúde, Nísia Trindade, foi alvo de críticas do parlamentar. Na avaliação de Solla, a atuação nas redes sociais tem sido utilizada por setores da direita como instrumento de projeção política.

