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Vilma Reis promete mandato crítico na Alba e defende mulher negra na disputa pela Prefeitura de Salvador em 2028
Vilma Reis promete mandato crítico na Alba e defende mulher negra na disputa pela Prefeitura de Salvador em 2028
Deputada estadual eleita pelo PT com 83.222 votos, ativista afirma que não terá “postura mansa” e diz que esquerda precisa aprender com os erros das últimas eleições
Por Evilásio Júnior
06/10/2026 às 12:57

Foto: Evilásio Júnior
A deputada estadual eleita Vilma Reis (PT) chega à Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) com a promessa de exercer um mandato independente, crítico e fortemente ligado aos movimentos sociais.
Em entrevista à CBN Salvador, a futura parlamentar afirmou que não pretende adotar uma postura “mansa” nem mesmo diante de eventuais divergências com o governo do próprio partido.
Com 83.222 votos, Vilma foi uma das principais novidades da eleição para a Assembleia Legislativa e consolidou uma trajetória de décadas no movimento negro, feminista e em defesa dos direitos humanos. Em Salvador, recebeu 50.502 votos e ficou entre as candidaturas mais votadas da capital, atrás apenas do também novato Tancredo Isidório (Avante).
“Eu sou uma militante crítica do meu partido”, afirmou. Segundo ela, a atuação parlamentar será pautada principalmente pelas demandas da população negra, das mulheres, da juventude, das comunidades quilombolas e das mães atípicas.
“Não temos por que fazer uma postura mansa. A situação do nosso povo é muito difícil”, declarou.
Da militância ao primeiro mandato eletivo
A chegada de Vilma Reis ao Legislativo baiano é resultado de uma trajetória construída desde a juventude. Nascida em Salvador e criada em Nazaré das Farinhas, ela ingressou no movimento estudantil ainda adolescente e posteriormente passou a atuar no movimento de mulheres negras.
Graduada em Sociologia, tornou-se professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e desenvolveu pesquisas sobre violência policial e segurança pública. Um dos trabalhos mais marcantes foi a investigação sobre a chamada Operação Beiru, realizada em 1996, quando dezenas de jovens foram mortos durante uma ação policial.
De acordo com Vilma, a pesquisa a levou ao encontro de familiares das vítimas e revelou uma realidade de violência que ultrapassava os limites do bairro.
Posteriormente, ela ocupou o cargo de ouvidora-geral da Defensoria Pública da Bahia por dois mandatos, período em que participou de ações relacionadas à interiorização da instituição, acesso à Justiça e implantação de políticas de inclusão.
Entre as medidas destacadas por ela está a criação de mecanismos para ampliar a presença de defensores públicos no interior e a adoção de cotas para negros na instituição.
“É uma experiência ser uma mulher negra afirmada e estar no conselho superior de um ente do sistema de Justiça. É muito intenso, mas é também o nosso povo se reconhecer”, afirmou.
“Nós temos orgulho de ter uma postura crítica”
Ao falar sobre a relação com o governo Jerônimo Rodrigues (PT), Vilma deixou claro que não pretende abrir mão da independência política.
A deputada eleita afirmou que dialogará com diferentes setores do PT, mas manterá uma posição crítica sempre que considerar necessário.
Entre as pautas que pretende levar para a Assembleia estão políticas para a juventude negra, mulheres negras, comunidades quilombolas, povos tradicionais e ampliação de políticas sociais.
Ela também citou episódios em que já se posicionou contra decisões de governos petistas, como a mobilização em defesa de escolas públicas ameaçadas de fechamento em Salvador.
Para Vilma, a atuação política precisa estar vinculada aos territórios e à participação popular.
“Nós temos orgulho de ter uma postura crítica, de fazer com que nosso povo também participe da política. É muito importante e é com esses mandatos populares, com o pé no território, que a gente faz nosso povo participar”, afirmou.
Vilma admite erros da esquerda em Salvador
Um dos momentos mais contundentes da entrevista ocorreu quando a deputada eleita avaliou os resultados recentes da esquerda na capital baiana.
Ao comentar a eleição municipal de 2024, Vilma reconheceu que o campo político ao qual pertence tomou decisões equivocadas ao escolher Geraldo Júnior (MDB) como candidato a prefeito contra Bruno Reis (União Brasil).
“Eu estou assumindo minha posição aqui. Acho que isso é o importante”, disse.
Para ela, a esquerda precisa aprender com os próprios erros e interpretar melhor o sentimento da população.
Vilma destacou que, na eleição estadual de 2026, a diferença entre os principais grupos políticos em Salvador foi reduzida de quase meio milhão de votos, registrada em 2022, para cerca de 139 mil votos.
Na avaliação dela, o resultado demonstra que há espaço para uma nova estratégia política na capital.
“Eu penso que agora, já em 2026, nós enxergamos e a gente leu a nossa própria decisão, que foi equivocada”, afirmou.
“Nós faremos essa disputa” em 2028
A deputada eleita também foi questionada sobre a possibilidade de uma mulher negra disputar a Prefeitura de Salvador em 2028. Nos bastidores, o nome da ministra da Cultura, Margareth Menezes, é apontado como uma possibilidade dentro do campo governista.
Vilma não confirmou nomes, mas afirmou que a esquerda precisa construir uma candidatura competitiva para a capital.
“A gente não tem tempo mais de cometer erros”, declarou.
O próprio presidente Lula já defendeu publicamente a necessidade de o campo político governista trabalhar para vencer a eleição municipal de Salvador em 2028.
“Nós faremos essa disputa”, afirmou.
Para Vilma, o debate precisa ser construído a partir das necessidades concretas da cidade, principalmente nas áreas sociais e nas regiões periféricas.
Críticas à Prefeitura de Salvador
A futura deputada também fez duras críticas à administração municipal de Bruno Reis, principalmente em relação à infraestrutura e às políticas sociais.
Ela citou problemas em bairros periféricos, falta de vagas em creches, condições de ruas e ausência de políticas voltadas à juventude. “A cidade está abandonada”, afirmou.
Vilma também criticou as condições no entorno da nova Rodoviária de Salvador e mencionou bairros como Jardim das Margaridas, Mata Escura, Santo Inácio, Beiru e Alto de Coutos.
De acordo com ela, o problema não está apenas em grandes obras, mas na manutenção cotidiana da cidade.
“A gente fez uma rodoviária maravilhosa. A rodoviária está cercada de mato. É vergonhoso”, criticou.
Desenvolvimento regional e interiorização da economia
Na Assembleia Legislativa, Vilma pretende defender uma mudança na distribuição dos investimentos públicos no estado.
Ela afirmou que a Bahia precisa descentralizar a economia e fortalecer os municípios e territórios fora dos grandes polos.
“Na Bahia, o dinheiro precisa mudar de mãos”, afirmou.
A deputada eleita defendeu investimentos na agricultura familiar, pesca artesanal e comunidades quilombolas como forma de combater a pobreza e estimular o desenvolvimento regional.
Para ela, a concentração econômica em Salvador, Região Metropolitana e cidades-polo não é suficiente para reduzir as desigualdades.
Educação e juventude
Apesar das críticas, Vilma também reconheceu avanços nas políticas educacionais do governo estadual, especialmente programas como o Bolsa Presença e a adesão dos estudantes baianos ao Enem.
Segundo ela, a Bahia conseguiu ampliar a permanência de jovens na escola e alcançou uma posição de destaque nacional nas inscrições para o exame.
Vilma defendeu, no entanto, que a escola pública precisa ir além da sala de aula, oferecendo cultura, tecnologia, formação profissional e atividades no contraturno.
Ela citou como exemplo a necessidade de aproximar das escolas profissionais das áreas de cinema, teatro, música, tecnologia e cultura popular.
“A gente tem uma gama de gente formada em cinema, na UFRB, na Ufba. Nós temos todo esse nosso povo formado em teatro, em música”, afirmou.
A deputada também defendeu a criação de novos equipamentos de formação para a juventude e sugeriu a implantação de um campus da Uneb na região do Subúrbio Ferroviário, com conexão com outros equipamentos educacionais.
Segurança pública também estará no centro do mandato
Especialista e pesquisadora da área de segurança pública, Vilma afirmou que o enfrentamento à violência precisa considerar a realidade social dos territórios.
Ela criticou a ideia de instalar equipamentos de formação de jovens próximos a estruturas policiais em áreas de conflito.
“Um jovem que está numa área conflagrada não pode ir para um centro de formação colado com base comunitária, colado com posto policial”, afirmou.
Na avaliação dela, políticas de juventude precisam criar oportunidades e não reforçar estigmas sobre moradores de regiões periféricas.
Vilma também defendeu a profissionalização, o acesso à cultura e a ampliação das oportunidades para os jovens negros.
Mandato com “pé no território”
Ao final da entrevista, Vilma Reis reforçou que pretende fazer da presença nos bairros e comunidades uma das marcas do mandato.
A deputada eleita afirmou que a política precisa voltar a dialogar diretamente com as pessoas e com os movimentos sociais.
A chegada dela à Alba também representa, segundo a própria parlamentar, o resultado de décadas de mobilização do movimento negro para ampliar a presença de mulheres negras nos espaços de poder.
“Nós não entramos na política para sermos estrelas, para a gente ficar em um projeto individual. Nós entramos na política e fazemos política a nossa vida inteira, exatamente por uma transformação”, afirmou.

