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Vorcaro diz que grupo ligado a Jaques Wagner e Rui Costa recebia propina de R$ 3 milhões por mês na Bahia; delação foi rejeitada pela PF e PGR

Vorcaro diz que grupo ligado a Jaques Wagner e Rui Costa recebia propina de R$ 3 milhões por mês na Bahia; delação foi rejeitada pela PF e PGR

Em proposta de delação rejeitada pela PF e PGR, ex-dono do Banco Master relata pagamentos por meio do Credcesta, contratos fictícios, dinheiro em espécie e participação oculta de aliados políticos; caso envolve privatização da Ebal durante governo Rui Costa

Por Redação

25/09/2026 às 08:57

Foto: Luís Capellão / Divulgação

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, afirmou em uma proposta de colaboração premiada que o grupo político dos senadores Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT) teria recebido cerca de R$ 3 milhões por mês em vantagens indevidas na Bahia por meio de operações relacionadas ao Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos estaduais.

A proposta de delação, porém, não foi homologada nem aceita pelas autoridades. De acordo com o UOL, a Polícia Federal deixou as negociações por duas vezes e a Procuradoria-Geral da República rejeitou o acordo por considerar que os relatos apresentados por Vorcaro não estavam acompanhados de elementos suficientes de corroboração.

Mesmo assim, o documento apresenta uma série de acusações que envolvem a estrutura empresarial do Credcesta, a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), contratos firmados pelo Banco Master e decisões tomadas durante o governo de Rui Costa, que hoje é candidato ao Senado.

R$ 3 milhões por mês: como funcionaria o suposto esquema

Segundo Vorcaro, os pagamentos seriam realizados por diferentes mecanismos.

O principal deles envolveria um contrato entre o Banco Master e a PKL One, empresa que explorava o Credcesta. O acordo previa pagamentos de aproximadamente R$ 2 milhões mensais, apresentados contratualmente como despesas operacionais.

Na versão de Vorcaro, entretanto, parte dos recursos seria utilizada para pagamentos indevidos por meio de contratos fictícios de consultoria, empresas interpostas e repasses em dinheiro.

Além disso, o ex-banqueiro relata o pagamento de mais R$ 1 milhão por mês em espécie, que teria sido destinado a pessoas ligadas ao grupo político.

O documento menciona ainda distribuição de lucros e dividendos da PKL One e contratos que, de acordo com Vorcaro, seriam utilizados para beneficiar pessoas indicadas por Wagner.

Credcesta e a privatização da Ebal

O centro do relato está na operação de venda do Credcesta, produto de crédito consignado criado no âmbito da Ebal.

A estatal baiana foi colocada à venda durante o governo de Rui Costa. No leilão, realizado em 2018, a empresa NGV Empreendimentos arrematou a Ebal por R$ 15 milhões.

De acordo com a versão apresentada por Vorcaro, o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, seria o verdadeiro controlador da empresa vencedora, embora formalmente o negócio estivesse registrado em nome do investidor espanhol Ignácio Morales.

Vorcaro afirma que Augusto Lima teria se associado a políticos baianos para direcionar a privatização e garantir o controle econômico do Credcesta.

O ex-banqueiro também aponta Guilherme Henrique Sodré Martins, conhecido como Guiga, pai do secretário estadual de Meio Ambiente Eduardo Sodré, como suposto operador ligado a Jaques Wagner. Segundo o relato, Guiga teria atuado na estrutura societária que controlava indiretamente a operação.

Decretos de Rui Costa ampliaram exploração do Credcesta

Um dos pontos que colocam o então governador Rui Costa no centro da cronologia apresentada na proposta de delação é a sequência de atos administrativos posteriores ao leilão.

Segundo o UOL, 16 dias depois da privatização da Ebal, dois decretos assinados por Rui Costa ampliaram as possibilidades de exploração do Credcesta e alteraram seu enquadramento no regime de consignações.

Posteriormente, a NGV transferiu os direitos de exploração do cartão para a PKL One Participações, empresa que passou a ocupar posição central na estrutura descrita por Vorcaro.

A proposta de delação sustenta que a participação societária na PKL era organizada por uma cadeia de fundos de investimento e que os beneficiários finais incluiriam Augusto Lima e pessoas que, segundo Vorcaro, representariam políticos baianos.

Documentos obtidos pela CPI do Crime Organizado mostram que Guilherme Sodré detinha 22,45% do fundo Gardênia, que tinha participação indireta na PKL One até dezembro de 2018.

Os documentos confirmam a presença de Sodré na estrutura societária, embora não comprovem que ele estivesse representando Jaques Wagner.

Banco Master pagava R$ 2 milhões mensais à PKL

Outro ponto relevante é o próprio contrato firmado entre a PKL One e o Banco Master.

O acordo previa pagamentos de aproximadamente R$ 2 milhões por mês, classificados como despesas operacionais e livres de impostos.

De acordo com Vorcaro, os recursos eram utilizados para bancar vantagens indevidas a políticos.

A acusação é de que o dinheiro seria posteriormente distribuído por meio de contratos fictícios de consultoria e empresas utilizadas como intermediárias.

O contrato, de fato, confirma a previsão dos pagamentos mensais. O documento, entretanto, não identifica políticos como beneficiários nem prova, isoladamente, que os R$ 2 milhões fossem propina. 

Suposto pagamento de R$ 1 milhão em dinheiro vivo

Depois, ainda segundo Vorcaro, Guilherme Sodré teria deixado a estrutura societária da PKL.

A versão apresentada na proposta de delação é que, para reduzir o risco de manter um suposto representante político na sociedade enquanto o Credcesta se expandia para outros estados, a participação teria sido transferida para a Entre Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior.

O contrato da transferência é descrito por Vorcaro como fictício.

Em paralelo, teria sido acertado um pagamento de R$ 1 milhão por mês em espécie a Guiga, valor que, segundo o relato, continuaria sendo pago até a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025.

Para produzir o dinheiro vivo, Vorcaro cita operações com empresas como Blue Pay e The Pay.

Conforme o ex-banqueiro, contratos com valores superiores aos serviços efetivamente prestados permitiriam gerar recursos em espécie.

O dinheiro, ainda conforme o relato, seria entregue ao motorista de Vorcaro, que faria a entrega dos pacotes a ele próprio ou a Augusto Lima.

Filha de Wagner também aparece no relato

A proposta de delação menciona ainda um contrato com uma filha de Jaques Wagner e uma empresa offshore ligada ao empresário João Carlos Falbo Mansur, dono da Reag.

Vorcaro classifica o contrato como parte dos mecanismos utilizados para beneficiar pessoas indicadas por Wagner.

O documento principal, porém, não informa o nome da filha, o valor do contrato, a data, o nome da empresa estrangeira ou quais serviços teriam sido prestados. As informações, segundo o UOL, estariam em um anexo ao qual a reportagem não teve acesso.

Relação com Rui Costa aparece na própria acusação 

Embora o capítulo da proposta de delação faça referência ao “grupo de Jaques Wagner e Rui Costa”, a situação de Rui Costa é diferente da de Wagner no relato.

O ex-governador aparece relacionado diretamente à cronologia da privatização da Ebal e é citado como o responsável pela assinatura dos decretos que alteraram as regras de exploração do Credcesta.

Vorcaro também afirma ter tido encontros sociais com Rui.

No entanto, nenhum pagamento específico, intermediário ou contrato é atribuído diretamente a Rui Costa no capítulo da proposta de delação.

Ainda assim, a citação ganha peso político porque a privatização da Ebal e os decretos que ampliaram a exploração do Credcesta ocorreram justamente durante sua gestão.

PF também investiga outros benefícios ligados a Wagner

As acusações da proposta de delação não são a única frente envolvendo Jaques Wagner no caso Banco Master.

De acordo com o UOL, o senador foi alvo de busca e apreensão em junho dentro das investigações.

A Polícia Federal apura se Wagner teria atuado em favor de interesses do Banco Master e recebido vantagens, incluindo viagens em aeronaves ligadas ao banco, ingressos para shows e um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões.

Uma empresa de sua nora também teria firmado um contrato de R$ 12 milhões com o Banco Master.

As suspeitas fazem parte de outra frente da investigação e não comprovam, por si só, os pagamentos mensais descritos na proposta de colaboração de Vorcaro.

O que ainda não foi comprovado

Apesar da dimensão das acusações, a própria documentação apresenta pontos que permanecem sem comprovação.

O contrato de R$ 2 milhões mensais entre Master e PKL existe, mas não identifica Wagner, Rui Costa ou outro político como beneficiário.

Os documentos também comprovam a participação de Guilherme Sodré na estrutura de fundos da PKL, mas não demonstram que ele atuasse em nome de Wagner.

Da mesma forma, o material apresentado por Vorcaro não mostra a entrega do dinheiro em espécie diretamente a Wagner ou a integrantes identificados de seu grupo.

A proposta também não apresenta uma relação completa de pagamentos, datas e beneficiários nem calcula quanto teria sido repassado ao longo dos anos.

Outro ponto importante: Vorcaro afirma que não presenciou o suposto acordo político. Segundo ele, tomou conhecimento do esquema por meio de Augusto Lima, que nega tê-lo feito.

Delator não conseguiu fechar acordo com PF e PGR

A proposta de colaboração não avançou.

A Polícia Federal deixou as negociações duas vezes, enquanto a PGR rejeitou o acordo por considerar insuficientes os elementos de corroboração apresentados.

Portanto, o conteúdo divulgado nesta sexta-feira não representa uma delação premiada homologada pela Justiça, mas uma proposta de colaboração que não foi aceita pelas autoridades.

O outro lado

A defesa de Jaques Wagner classificou as acusações como falsas e oportunistas e afirmou que elas teriam sido produzidas para interferir nas eleições.

Os advogados disseram que Wagner não tem conhecimento de contratos fictícios da PKL One e nunca teve relação com a empresa. Também negaram vínculo do senador com Daniel Vorcaro e afirmaram que Wagner nunca atuou em favor de pautas do Banco Master no Congresso.

A defesa de Augusto Lima também negou as acusações e classificou o relato de Vorcaro como falso.

Conforme os advogados, não houve ato funcional praticado por Wagner ou pelo então ministro Rui Costa em benefício de Augusto Lima ou do Banco Master. A defesa também sustenta que os serviços previstos no contrato entre PKL e Banco Master foram efetivamente prestados e não houve irregularidade.

A defesa de Daniel Vorcaro, por sua vez, afirmou não reconhecer a autenticidade e a integridade do material divulgado e criticou a divulgação de anexos relacionados a uma colaboração que não chegou a ser celebrada.

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