Careca de Saber | Nem todo vereador vira deputado
De Alan Sanches e Tia Eron a Emerson Penalva, levantamento do Blog do Vila mostra como ficou mais difícil trocar a Câmara de Salvador por uma cadeira na Alba ou em Brasília; agora, 19 nomes aparecem no radar eleitoral, mas nem todos devem chegar à urna
Por Evilásio Júnior
08/06/2026 às 06:00

Foto: Na composição atual da Alba, apenas Émerson Penalva, Hilton Coelho, Olívia Santana, Paulo Câmara e Tiago Correia integraram o Legislativo soteropolitano | Sandra Travassos / Alba
Durante muito tempo, conquistar um mandato de vereador em Salvador significava estar a poucos passos de voos mais altos. A Câmara Municipal funcionava como uma espécie de antessala da Assembleia Legislativa da Bahia e, em alguns casos, até da Câmara dos Deputados.
Os tempos mudaram.
Levantamento do Blog do Vila indica que o caminho entre o plenário Cosme de Farias e os parlamentos estadual e federal continua a existir mas ficou bem mais estreito.
Isso ajuda a explicar por que alguns vereadores já começaram a recalcular suas rotas eleitorais antes mesmo do início oficial da campanha.
A próxima eleição poderá colocar até 19 vereadores da capital na disputa por vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. O número impressiona. Mas os bastidores indicam que a quantidade de candidaturas efetivas pode ser menor e que, mais uma vez, poucos devem conseguir atravessar a ponte que separa Salvador da Alba e de Brasília.
A Câmara que fazia deputados
A história recente mostra que a Câmara Municipal já teve muito mais facilidade para produzir deputados.
Em 2010, três vereadores conseguiram trocar seus mandatos municipais por cadeiras nos Legislativos estadual e federal: Alan Sanches e Sidelvan Nóbrega conquistaram cadeiras na Alba, enquanto Erivelton Santana seguiu para Câmara.
Quatro anos depois veio o auge.
A eleição de 2014 levou nada menos que seis vereadores para mandatos estaduais e federais: Marco Prisco, Fabíola Mansur, Alan Castro, David Rios e Marcell Moraes, todos para o Centro Administrativo da Bahia, e Tia Eron para a capital federal.
Foi o melhor desempenho da Câmara nas últimas décadas.
Em 2018, a tradição ainda se manteve viva. Conseguiram se eleger Leo Prates, Paulo Câmara e Hilton Coelho, estaduais, e Igor Kannário, federal.
Mas o cenário mudou radicalmente na eleição seguinte.
Em 2022, dos 26 vereadores que disputaram mandato de deputado estadual ou federal, apenas um conseguiu se eleger: Emerson Penalva.
A curva chama atenção.
Os números não contam toda a história, mas revelam uma tendência difícil de ignorar: a Câmara continua a produzir candidatos, porém tem gerado cada vez menos deputados.
O desafio é matemático
Há uma explicação objetiva para o fato.
Um vereador de Salvador costuma construir sua eleição com votação concentrada na capital. Em muitos casos, o desempenho varia entre 10 mil e 20 mil votos.
Para deputado estadual, a conversa muda.
A depender da chapa, um candidato competitivo normalmente precisa ultrapassar a faixa dos 45 mil ou 50 mil votos.
Para deputado federal, a exigência costuma ser ainda maior, frequentemente acima dos 80 mil votos.
Na prática, significa que muitos vereadores precisam dobrar, triplicar ou até quadruplicar sua base eleitoral para sonhar com uma vitória.
É justamente nesse ponto que muitos projetos ficam pelo caminho.
Ter mandato ajuda. Ser conhecido ajuda. Mas nenhuma dessas condições substitui a necessidade de ampliar influência para além dos limites de Salvador.
Os que colocaram o bloco na rua
Hoje, oito vereadores aparecem como pré-candidatos a deputado estadual:
- Anderson Ninho (PSDB)
- André Fraga (PV)
- Cezar Leite (PL)
- David Rios (MDB)
- Felipe Santana (PSD)
- George Gordinho da Favela (PP)
- Paulo Magalhães Júnior (União Brasil)
- Sílvio Humberto (PSB)
Na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados aparecem:
- Alexandre Aleluia (Novo)
- Cris Correia (PSDB)
- Débora Santana (PSDB)
- Duda Sanches (PSDB)
- Eliete Paraguassu (PSOL)
- Hamilton Assis (PSOL)
- Jorge Araújo (PP)
- Maurício Trindade (PSDB)
- Sandro Bahiense (PP)
- Sandro Filho (PP)
- Roberta Caires (Republicanos)
No papel, são 19 nomes, mas a lista pode encolher.
Marcelle saiu do jogo
A principal novidade dos bastidores surgiu nos últimos dias.
Informações recebidas pelo blog dão conta de que a vereadora Marcelle Moraes (União Brasil) decidiu não disputar mandato de deputada este ano.
Mais do que isso, já definiu seus apoios, segundo interlocutores.
Vai caminhar com Paulo Câmara, do PL, para deputado estadual, e com Alexandre Aleluia, do Novo, para deputado federal.
A decisão não é irrelevante.
Marcelle possui um eleitorado próprio e sua retirada da disputa altera o equilíbrio de forças em um campo político onde a concorrência pelos mesmos votos já é intensa.
Na prática, sua saída representa uma redistribuição de capital político.
Nem todos devem chegar à urna
Marcelle não é a única interrogação do processo.
Nos corredores da Câmara, aliados de Roberta Caires e Cris Correia tratam ambas como praticamente fora da disputa.
No caso de Débora Santana, o cenário continua indefinido. Apesar de integrar a nominata tucana, a vereadora ainda resiste à ideia de entrar efetivamente na corrida eleitoral.
Já Alexandre Aleluia vive uma situação peculiar.
Embora apareça como pré-candidato a deputado federal, vereadores ouvidos pela coluna avaliam que ele deve concentrar esforços na articulação da futura sucessão da presidência da Câmara Municipal.
Se tais avaliações se confirmarem, a quantidade real de candidatos será consideravelmente menor do que os números sugerem hoje.
Quem larga na frente?
É cedo para apontar favoritos, mas alguns nomes chegam à largada em posição menos desconfortável.
Entre eles aparecem Duda Sanches e Jorge Araújo, para federal, André Fraga e Paulo Magalhães Júnior, para estadual, todos com dobradinhas fortes, exposição pública ou bases eleitorais identificáveis.
Há ainda o caso de David Rios, que já percorreu o caminho anteriormente. Ex-vereador e ex-deputado estadual, ele tenta repetir uma trajetória que já deu certo no passado.
Outros dependerão fortemente do desempenho de suas chapas e da capacidade de expandir suas votações para além dos bairros onde tradicionalmente concentram força política.
O mandato ficou mais valioso?
Há outra explicação possível para a redução do número de vereadores eleitos deputados.
Talvez a Câmara tenha mudado ou talvez tenham mudado os próprios vereadores.
Nos últimos anos, o Legislativo municipal ganhou protagonismo político, ampliou sua visibilidade e passou a oferecer uma vitrine que antes era muito mais restrita.
Para alguns parlamentares, permanecer vereador deixou de ser um plano provisório para se transformar em um projeto político de longo prazo.
Não por acaso, vários dos nomes inicialmente especulados para a disputa parecem fazer contas cada vez mais cautelosas.
O teste de 2026
A próxima eleição colocará à prova uma tradição histórica da política soteropolitana.
Durante décadas, a Câmara Municipal foi uma das principais portas de entrada para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados.
Foi assim com Alan Sanches, Tia Eron, Leo Prates, Igor Kannário, Paulo Câmara, David Rios e tantos outros.
A pergunta agora é outra. Quem conseguirá repetir o caminho?
Os partidos ainda montam suas chapas. Os vereadores ainda fazem suas contas.
E as primeiras desistências já apareceram.
Mas uma coisa parece certa: se a história recente servir de parâmetro, o número de candidatos será muito maior do que o número de vencedores.
Porque, na política baiana, nem todo vereador vira deputado.

