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Careca de Saber | Guerra pelas bases: ofensiva do governo põe mandatos da oposição na mira
Careca de Saber | Guerra pelas bases: ofensiva do governo põe mandatos da oposição na mira
Palácio de Ondina intensifica articulações no interior de olho nas eleições proporcionais; deputados afirmam que Angelo Coronel Filho, Elmar Nascimento e Arthur Maia estão entre os principais alvos da disputa por redutos eleitorais
Por Evilásio Júnior
29/06/2026 às 06:00

Foto: Sandra Travassos / Alba | Kayo Magalhães / Bruno Spada / Câmara dos Deputados
Quem acompanha apenas os discursos públicos talvez imagine que a eleição na Bahia ainda esteja concentrada na disputa pelo Palácio de Ondina. Nos bastidores, no entanto, o jogo mais pesado acontece em outra frente: a montagem das futuras bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
O Blog do Vila ouviu deputados da base governista e da oposição nas últimas semanas e encontrou um diagnóstico praticamente consensual: o governo Jerônimo Rodrigues (PT) decidiu antecipar a disputa pelas bases eleitorais no interior para fortalecer seus candidatos às eleições proporcionais.
Interlocutores do núcleo político do governo rejeitam a tese de que haja uma operação dirigida contra adversários específicos. Admitem, porém, que a orientação é ampliar o número de deputados estaduais e federais aliados por meio da agenda do governador e, principalmente, dos encontros do Programa de Governo Participativo (PGP), utilizados para apresentar realizações da gestão e consolidar apoios políticos pelo interior.
Na oposição, entretanto, a leitura é outra.
Deputados ouvidos pela coluna afirmam que a estratégia tem endereço certo e ganhou força após o rompimento do senador Angelo Coronel (Republicanos) com o governo e sua decisão de disputar a reeleição ao lado de ACM Neto (União Brasil). Também apontam como fatores a permanência de Elmar Nascimento (União Brasil) na oposição, mesmo após sucessivos convites para migrar de lado, e a atuação de Arthur Maia (União Brasil) como um dos principais críticos da gestão petista.
"Foram para cima"
Um deputado governista resume assim o ambiente político.
"O governo foi para cima de Angelo Coronel Filho. Invadiram as bases dele. Se o Republicanos fizer só três deputados estaduais, ele corre sério risco. Também foram para cima de Hassan, mas ele tem muita gordura e a prefeitura de Jequié segurando. A disputa está sendo feita município por município."
Na avaliação do parlamentar, o movimento também alcança a bancada federal.
"Vão liberar Diego [Coronel] porque é afilhado de Otto e também é jeitoso. Os federais que eles querem tirar do jogo são Elmar e Arthur Maia. Se eles não segurarem as bases, podem ficar pelo caminho."
Outro deputado reforça que a estratégia passa pela matemática eleitoral.
"Essa eleição será decidida por mil ou dois mil votos. Um candidato faz 103 mil votos e entra; outro faz 100 mil e perde. A estratégia é reduzir principalmente as chances de reeleição de Arthur Maia e Angelo Coronel Filho."
Alvos de peso
Os nomes citados pelos parlamentares não foram escolhidos por acaso.
Na eleição de 2022, Angelo Coronel Filho, então filiado ao PSD, foi o 20º deputado estadual mais votado da Bahia, com 76.455 votos. Já Hassan (PP), outro nome lembrado nas conversas de bastidor, terminou a disputa como o 38º mais votado, com 60.718 votos.
Na Câmara dos Deputados, Elmar Nascimento foi o 2º deputado federal mais votado da Bahia, quando alcançou a marca de 175.439 votos. Arthur Maia, por sua vez, conquistou a 25ª colocação, com 108.672 votos.
Para deputados ouvidos pela coluna, os desempenhos ajudam a explicar por que os parlamentares se tornaram estratégicos na disputa pelas bases municipais. Em uma eleição proporcional que promete ser ainda mais competitiva, pequenas perdas de apoio podem ser suficientes para alterar o resultado.
Prefeitos viram peça-chave
Aliados de Angelo Coronel afirmam que prefeitos comprometidos com o grupo têm sido procurados por interlocutores ligados ao governo.
A avaliação, contudo, é que a estratégia ainda não produziu os efeitos esperados.
"Já ligaram para prefeitos que caminham com o senador. Alguns relataram pressão, mas disseram que permanecem com Coronel porque ele ajudou os municípios mesmo quando o governo rompeu politicamente com o grupo."
Outro parlamentar ouvido pela coluna afirma que a disputa também passa pela relação administrativa com os municípios.
"Tem prefeitura recebendo parcelas de convênios antes mesmo da conclusão dos processos. A leitura política é de que isso faz parte da estratégia para consolidar bases rapidamente. Inclusive, já houve alerta interno sobre o risco de problemas futuros caso esses convênios não sejam efetivados."
A leitura do Palácio
Integrantes do núcleo político do governo rejeitam que haja qualquer orientação para enfraquecer parlamentares específicos.
Segundo os interlocutores, a missão do governo é política e eleitoral: ampliar as bancadas governistas em 2026 por meio da apresentação dos resultados da gestão e da mobilização promovida pelos encontros do PGP.
Na avaliação do grupo, disputar prefeitos, vereadores e lideranças faz parte do processo eleitoral e não representa perseguição a adversários.
A campanha já começou
Uma coisa, no entanto, une governistas e oposicionistas: a eleição proporcional já está em andamento, mesmo antes da abertura oficial da campanha.
Enquanto o debate público ainda gira em torno da sucessão estadual, prefeitos, vereadores, ex-prefeitos e lideranças municipais passaram a ser os ativos mais disputados da política baiana.
No fim das contas, todos sabem que uma vaga na Assembleia ou na Câmara pode depender de poucos milhares de votos.

