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Jerônimo aponta o dedo para os adversários, mas esquece que tem quatro apontados de volta

Jerônimo aponta o dedo para os adversários, mas esquece que tem quatro apontados de volta

Às vésperas do horário eleitoral gratuito, estratégia do governador tenta transformar problemas de ACM Neto em centro da eleição, enquanto o próprio governo enfrenta Banco Master, ponte, BR-324, propaganda irregular e contradições difíceis de explicar

Por Evilásio Júnior

24/08/2026 às 06:00

Foto: Luiz Henrique / CBN | Peça irregular instalada na Avenida Paralela

Há uma velha regra da política: quando você aponta um dedo para alguém, há pelo menos outros três apontados para você. 

A campanha de Jerônimo Rodrigues (PT) parece ter esquecido disso.

Às vésperas da estreia do horário eleitoral gratuito, que começa nesta sexta-feira (28) no rádio e na televisão, a estratégia de comunicação do governador e candidato à reeleição parece ter escolhido um caminho bastante claro: falar mais dos problemas dos adversários do que dos próprios problemas do governo. 

A estratégia não é nova. Faz parte do jogo eleitoral.

O problema é quando o discurso começa a exigir do eleitor um esforço maior do que aquele necessário para entender os fatos.

É o caso, por exemplo, do Banco Master.

É o caso da Ponte Salvador-Itaparica.

É o caso da cratera da BR-324.

É o caso da propaganda eleitoral instalada na Avenida Paralela.

E até dos debates.

Porque, na campanha de Jerônimo, quando ACM Neto não comparece a um debate, ele “foge”. Quando Jerônimo não comparece, ele tinha “agenda previamente marcada”. 

Conveniente, não?

A arte de escolher o contexto que interessa

O melhor exemplo está justamente na ausência dos candidatos em debates.

Na última quarta-feira (19), ACM Neto não participou do debate da Bahia FM. Estava em Salvador e, segundo a própria comunicação de Jerônimo, tinha compromissos de campanha na cidade.

A assessoria do governador não perdeu tempo.

Distribuiu um release com o título: “ACM Neto foge de mais um debate e deixa baianos sem resposta sobre o Banco Master.” 

O texto dizia que, enquanto Jerônimo cumpria uma agenda previamente marcada em Barra, no Oeste da Bahia, Neto teria preferido “se esquivar do microfone”.

Até aí, faz parte da disputa política.

O detalhe é que Jerônimo também não estava no debate e foi ele o responsável pelo cancelamento do evento previsto na própria emissora estatal TVE Bahia.

O governador tinha uma justificativa para sua ausência. Neto, segundo a comunicação governista, tinha uma desculpa.

É uma curiosa maneira de enxergar a democracia: para o candidato do governo, contexto; para o adversário, culpa. 

E tem mais.

Quem estava no debate era Ronaldo Mansur.

Foi dele a pergunta sobre o Banco Master que a própria comunicação de Jerônimo reproduziu no release para atacar ACM Neto.

Ou seja: Jerônimo não foi ao debate, mas aproveitou a pergunta de quem foi para dizer que quem não foi deveria ter respondido.

É uma espécie de debate por procuração.

O Banco Master e a régua seletiva 

O Banco Master, aliás, é a principal arma da comunicação de Jerônimo contra ACM Neto.

A campanha governista insiste em explorar o contrato de R$ 5,3 milhões firmado pelo ex-prefeito com o banco e tratar o episódio como se o vínculo contratual, por si só, colocasse Neto no centro da investigação.

A própria existência do contrato e a consultoria prestada podem e devem ser questionadas politicamente. O eleitor tem todo o direito de saber o que foi contratado, qual serviço foi prestado e quanto foi pago.

O problema começa quando a comunicação de Jerônimo age como se a operação tivesse endereço único.

Porque não tem.

A Operação Compliance Zero também alcançou gente do próprio campo governista.

O secretário estadual de Meio Ambiente, Eduardo Sodré, foi alvo da investigação. Mesmo assim, Jerônimo decidiu mantê-lo no cargo e justificou a decisão pela presunção de inocência.

Até porque, investigação não é condenação. 

Mas a mesma régua precisa valer para todos.

Não dá para a presunção de inocência ser um princípio jurídico quando se fala de um secretário do governo e desaparecer quando o assunto é o adversário.

E o caso de Jaques Wagner, candidato à reeleição na chapa de Jerônimo, torna a situação ainda mais delicada.

O relatório da Polícia Federal aponta indícios preliminares de recebimento de vantagens indevidas atribuídas ao senador no contexto das relações investigadas com o núcleo do Banco Master. Entre os elementos citados estão um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2,45 milhões, uso gratuito de aeronaves e ingressos para shows. 

A investigação também aponta possível atuação parlamentar de Wagner em temas de interesse do banco, inclusive em torno da chamada Emenda Master e da PEC 65. 

É importante repetir: indícios investigativos não equivalem a condenação. 

Mas também não são irrelevantes.

E aí fica a pergunta que a comunicação de Jerônimo talvez não queira responder: se investigação não significa culpa quando o investigado está dentro de casa, por que deveria significar quando o investigado é o adversário? 

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Confira aqui o relatório da PF na íntegra

A ponte que precisa atravessar a realidade 

Outro exemplo da estratégia governista é a Ponte Salvador-Itaparica.

Os governos da Bahia e federal apresentaram 1º de julho como o início oficial das obras. Houve evento com Lula, Jerônimo e toda a liturgia política que acompanha um empreendimento dessa dimensão.

E, sim, houve mobilização de estruturas e materiais para os canteiros.

Mas uma coisa é iniciar oficialmente uma obra.

Outra é convencer o eleitor de que a ponte está praticamente pronta para aparecer no horizonte de Salvador.

A diferença pode parecer semântica para um marqueteiro.

Para quem acompanha a execução de uma obra de mais de uma década de anúncios, não é.

A própria comunicação oficial do governo, em maio, informava que os materiais seriam utilizados na montagem dos canteiros e que, a partir dessa etapa, começaria efetivamente a obra.

Agora, além da pressão política pelo cronograma, surgiu outro problema: o Ministério Público Federal instaurou inquérito civil para apurar possível particionamento indevido do licenciamento ambiental do Sistema Rodoviário Ponte Salvador-Itaparica.

Isso não significa que o MPF tenha concluído que houve irregularidade. Significa que o órgão decidiu investigar.

E aqui está a diferença entre jornalismo e propaganda: a propaganda anuncia; o jornalismo pergunta. 

A ponte pode até ter começado oficialmente com a instalação de estruturas metálicas no estaleiro Enseada do Paraguaçu.

Mas agora terá de atravessar também a ponte do licenciamento ambiental.

Até a cratera virou peça de campanha 

A cratera aberta na BR-324, em Simões Filho, também acabou por entrar na disputa da narrativa.

O DNIT informou que a circulação de água no aterro provocou o problema e adotou medidas para reparar o trecho e garantir a segurança da via.

Mas, em vez de deixar que uma questão técnica fosse tratada como questão técnica, a política entrou em campo.

O líder do governo na Assembleia Legislativa, Rosemberg Pinto, divulgou uma informação que dava o reparo como concluído e acusava a oposição de explorar politicamente o problema.

É exatamente aí que mora o risco da comunicação governista.

Quando tudo vira propaganda, qualquer detalhe pode virar contra-propaganda. 

Se o reparo é apresentado como solução definitiva e a pista continua a exigir cuidados, o problema deixa de ser apenas um buraco na rodovia.

Vira uma cratera na narrativa.

E tem o outdoor 

Como se não bastasse, a campanha de Jerônimo ainda arrumou um problema que poderia ter sido evitado simplesmente com uma consulta à legislação eleitoral.

Na Avenida Paralela, em Salvador, uma estrutura de grande dimensão com a imagem de Jerônimo, o número 13 e apoiadores foi instalada dentro da área do antigo Wet'n Wild.

A campanha pode até argumentar que a placa tripla com arte vazada está em propriedade privada, no entanto ela é visível para quem passa pela pista.

Consultado pelo Blog do Vila, um integrante da Justiça Eleitoral confirmou, em caráter reservado, que a peça não poderia estar instalada daquela forma e informou que situações semelhantes podem ser denunciadas à Justiça Eleitoral.

As imagens são eloquentes.

Não se trata de uma pequena manifestação partidária escondida atrás de um muro.

É uma estrutura publicitária de grande porte, perfeitamente visível para milhares de motoristas que passam diariamente pela Paralela.

E a legislação eleitoral é clara ao vedar outdoors e também conjuntos de peças que produzam efeito visual de outdoor. 

A campanha mal começou e já existe uma pergunta para a Justiça Eleitoral responder.

O problema de Neto é outro 

É preciso reconhecer: ACM Neto também não tem feito uma campanha perfeita. 

O principal adversário de Jerônimo ainda parece excessivamente preocupado em provar que não é aliado de Jair Bolsonaro.

O problema é que, cada vez que Neto responde à provocação, aceita a pauta escolhida pelo PT.

Jerônimo quer falar de Bolsonaro. Neto pretende falar de Bahia.

Jerônimo quer discutir 2022. Neto precisa debater 2026.

Jerônimo quer transformar a eleição estadual em plebiscito sobre Lula e Bolsonaro.

Neto precisa mostrar por que o eleitor deveria trocar o governo.

É uma diferença estratégica enorme.

Quem passa a campanha inteira respondendo ao adversário corre o risco de esquecer de apresentar a própria candidatura. 

E o entorno de Neto também não ajuda.

Nilo e o dossiê que ainda não apareceu 

O deputado federal Marcelo Nilo (Republicanos) resolveu comprar uma briga com o presidente do TRE-BA, Maurício Kertzman, e anunciou um suposto dossiê contra o desembargador.

O episódio produziu barulho, acusações e ameaças de divulgação.

Depois, a divulgação foi adiada.

Até agora, o dossiê continua no campo das promessas.

Na política baiana, talvez seja a primeira vez que até um dossiê consegue adotar o ritmo da Ponte Salvador-Itaparica.

Anuncia-se, aguarda-se e ninguém sabe exatamente quando chega. 

Diego Castro e o excesso de lacração 

O deputado estadual Diego Castro (PL) também entregou munição de graça aos adversários ao protagonizar a confusão na Faculdade de Comunicação da Ufba.

A repercussão foi além das redes sociais.

A Justiça impôs restrições à atuação do parlamentar, a exemplo de limitações para entrada em unidades da rede estadual e proibição de filmagens, transmissões ao vivo e abordagens político-partidárias em determinadas situações.

Para quem quer construir uma candidatura de governo, é um péssimo cenário ter aliados transformando confronto em método.

Neto precisa convencer o eleitor de que está pronto para governar. E parte do seu entorno precisa entender que governar exige mais do que lacrar.

Ronaldo Mansur faz o jogo errado? 

Mansur tem um desafio diferente.

O candidato do PSOL precisa construir identidade própria e mostrar que não é apenas um satélite da polarização entre PT e União Brasil. 

Mas há um risco evidente.

Quando ele faz uma pergunta sobre ACM Neto e a comunicação de Jerônimo imediatamente transforma a fala em release oficial da campanha governista, alguma coisa está errada.

Não necessariamente com a pergunta.

Com o papel que ela passa a desempenhar na eleição. 

Mansur foi ao debate.

Perguntou.

Neto não foi.

Jerônimo também não.

Mas quem transformou a pergunta em arma política foi a campanha de Jerônimo.

É uma situação curiosa para um candidato que pretende se apresentar como alternativa ao grupo que governa a Bahia.

Mansur corre o risco de deixar de ser a terceira via para virar a linha auxiliar da estratégia de comunicação de Jerônimo. Uma espécie de Padre Kelmon de 2022 com gosto de dendê.

E aí a provocação é inevitável: se o candidato adversário tem fornecido exatamente o discurso que a campanha governista gostaria de fazer, quem faz oposição a quem? 

O horário eleitoral vai testar tudo isso 

É justamente por isso que a chegada do horário eleitoral gratuito será tão importante.

A partir desta sexta-feira (28), os candidatos terão rádio e televisão para fazer aquilo que as redes sociais, os releases e as entrevistas não conseguem fazer sozinhos: apresentar uma narrativa completa ao eleitor. O horário gratuito do primeiro turno será exibido até 1º de outubro. 

Jerônimo terá a máquina política de um governo, a associação com Lula e uma enorme quantidade de realizações para apresentar. 

Com menos tempo que o principal adversário, terá também que explicar por que o eleitor deveria acreditar que tudo está tão bem quanto a propaganda diz.

Neto terá que escapar da armadilha de passar a eleição inteira respondendo se é ou não bolsonarista e explicar, finalmente, qual Bahia pretende entregar.

Mansur terá que provar que há uma candidatura do PSOL além da função de atacar ACM Neto.

No fim, todos terão que vender alguma coisa.

Mas há uma diferença entre vender e maquiar um produto.

E esse talvez seja o grande erro da estratégia de Jerônimo nesta largada.

A campanha parece acreditar que basta apontar o dedo para o adversário para esconder as próprias digitais.

Só que o eleitor não é bobo.

Ele vê a ponte.

Vê a cratera.

Vê o outdoor.

Vê o Banco Master.

Vê quem vai ao debate e quem não vai.

E, principalmente, começa a perceber quando a régua muda conforme o lado do balcão.

Jerônimo pode até manter a narrativa de que vende salmão.  Mas, se o eleitor olhar para a banca e enxergar bagre, não existe marqueteiro capaz de mudar o cheiro do peixe.

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