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Operação tartaruga: 'Clima está ruim para votar'; Saiba quais são as principais queixas dos vereadores com o Executivo
Operação tartaruga: 'Clima está ruim para votar'; Saiba quais são as principais queixas dos vereadores com o Executivo
Base trava votação na Câmara de Salvador em protesto por obras paradas, emendas represadas e falta de diálogo com Bruno Reis
Por Evilásio Júnior
29/08/2025 às 06:00

Foto: Evilásio Júnior
Duas semanas após enviar 15 projetos à Câmara Municipal de Salvador, o prefeito Bruno Reis (União Brasil) ainda não conseguiu destravar as votações, mesmo com maioria confortável na Casa – 33 dos 43 vereadores.
Até o momento, apenas cinco matérias foram lidas em plenário e começaram a tramitar no último dia 18. Uma delas, o Projeto de Lei Complementar nº 03/2025, que trata da regulamentação do acordo firmado entre o Palácio Thomé de Souza e os educadores, por meio da APLB-Sindicato, voltou para correção do Executivo soteropolitano.
Entre os textos já protocolados está o que garante subsídio de R$ 0,42 nas tarifas de ônibus e BRTs e dois pedidos de empréstimos que, juntos, somam aproximadamente R$ 1,28 bilhão.
Queixas da base: de obras a festas
O motivo da letargia é a falta de execução de obras indicadas pelos edis. O Blog do Vila ouviu queixas de governistas que vão desde o "clima está ruim para votar" até "das emendas esse ano ninguém teve nada". Poucos são os integrantes que relatam não terem pendências a serem equacionadas.
Entre a intervenções requeridas há construção e reforma de praças, campos de futebol e contenções de encostas. De acordo com os aliados de Bruno, enquanto não houver uma sinalização positiva do prefeito, nada será votado.
"Acredito que não votam. Não tem urgência em projeto nenhum e a reclamação é geral: são sete meses de obras paradas. Ele tem que conversar", confessou um integrante da bancada, em reservado. "Esse ano ninguém teve nada. Nenhum buraco tapou. Teve praça que foi iniciada e paralisou e algumas nem começaram. As obras estão em marcha lenta e a resposta que dá é a questão financeira", protestou outro.
Segundo alguns vereadores, "se pelo menos metade das festas e eventos" fosse liberada, a situação estaria menos tensa entre Legislativo e Executivo.
Enquanto os projetos da prefeitura estão parados, pelo menos propostas de vereadores devem ser votadas até o final de setembro. Uma reunião na Comissão de Constituição e Justiça e Redação Final (CCJ) está marcada para a segunda semana do próximo mês, a fim de definir as duas matérias que cada integrante terá direito a indicar para serem apreciadas em plenário.
Novatos também aderem ao boicote
A insatisfação da bancada atinge não apenas os vereadores antigos. Os 11 "novatos" ainda não tiveram sequer a chance de indicar qualquer intervenção na cidade, mas pelo menos conseguiram se reunir mês passado com Bruno Reis.
Conforme relatos feitos ao blog, em um almoço realizado no Palácio há cerca de um mês, o prefeito informou os novos representantes que "não teria condições orçamentárias" para receber novas demandas e que "as coisas iriam rodar com dificuldade esse ano".
Um deles, inclusive, chegou a declarar apoio ao boicote promovido pelos veteranos: "Só os antigos estão sendo atendidos, em passo de tartaruga. Sete meses e nada de novo. Eu entendo as queixas e já disse a eles que contem comigo. Está muito difícil".
Pelo menos aos novos vereadores Bruno estimou um prazo para normalizar as indicações: "Só a partir do final de outubro".
Versão oficial: "Nenhuma obra ficará sem término"
Em entrevista à CBN Salvador, o secretário municipal de Obras e Infraestrutura, Luiz Carlos de Souza, afirmou que não há atrasos pelo menos nas obras executadas pela Superintendência de Obras Públicas (Sucop), ligada à sua pasta.
"Nós estamos tocando todas elas", disse, ao pontuar, que "nenhuma obra iniciada ficará sem o devido término".
No entanto, ele ponderou que intervenções como escadarias, praças e escolas são de responsabilidade da Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal), vinculada à Secretaria de Manutenção (Seman), comandada por Lázaro Jezler Filho.
Sessão esvaziada e tropeços da base
A operação tartaruga dos vereadores foi escancarada na sessão da última segunda-feira (25), que não teve um quórum tão expressivo (33), mas suficiente para estancar os ataques da oposição.
No entanto, o que se viu foram lideranças de primeira hora do prefeito marcarem presença e baterem em retirada antes da abertura dos trabalhos.
Enquanto a oposição massacrava Bruno sobre os novos pedidos de empréstimo, até as 15h15 nenhum vereador da base tinha feito inscrição para falar.
O primeiro aliado de Bruno a subir ao púlpito foi Téo Senna (PSDB) que, desavisado, defendeu os financiamentos do município, ao compará-los com os enviados pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT) à Assembleia Legislativa.
Isso motivou Cezar Leitte (PL) a pedir a palavra para comentar o assunto, chamar Lula e Dilma Rousseff de "boy" e "garotinha" de recados da China – o que gerou pedido de retirada dos termos da ata pela líder da minoria Aladilce Souza (PCdoB), o que foi consentido pelo presidente da Casa, Carlos Muniz (PSDB) – e exaltar a liderança de Jair Bolsonaro em uma pesquisa eleitoral.
Na sequência, Cláudio Tinoco (União) ainda reforçou a defesa de Téo, mas a sessão acabou sem maior reação da base.
Aladilce critica atrelamento, mas se solidariza
Embora a líder da oposição, Aladilce Souza (PCdoB), defenda que "não se deve condicionar uma coisa a outra", ela se diz solidária à reclamação dos governistas sobre o tratamento recebido pelo Thomé de Souza.
"Eu acho que o prefeito tem que tratar todos os vereadores muito bem. É obrigação dele, tanto com os da base quanto conosco também. É obrigação, independentemente das matérias, dos projetos, das políticas que são propostas para a cidade. Eu acho que tem que haver uma desvinculação. A gente percebe que tem um mal-estar aqui na Câmara, uma insatisfação com o Executivo. O prefeito tem que respeitar a base dele, tem que atender os vereadores", afirmou, em conversa com o blog.
No entendimento da comunista, no entanto, os vereadores "têm que se empenhar, fazer um bom mandato, debater os projetos e dar transparência, inclusive, ao que está por trás de cada projeto, e colocar o interesse da cidade acima de qualquer um".
Governo minimiza: "movimento corriqueiro"
Líder do governo na Câmara, Kiki Bispo (União) minimizou a querela, ao classificá-la como "movimento corriqueiro".
"Acho que é normal você estar com o seu aliado requerendo melhorias, até porque a Prefeitura elevou muito o patamar da cidade. Então, naturalmente, os vereadores querem mostrar trabalho e serviço. As cobranças são diárias e pode existir, aqui, acolá, uma obra ainda não concluída, mas nada que a prefeitura não faça. Eu acho que é um momento, uma relação extremamente normal da base do governo com a prefeitura", justificou, o vereador, em entrevista ao Blog do Vila.
Para ele, o problema está prestes a ser sanado: "Nada que um diálogo, uma conversa e a liberação dos orçamentos não resolva".